O Blog no Fim do Universo

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BNFDU entrevista: Daniel Fernandes e o mash-up literário.

Posted by Darshany L. em 12/06/2009

Daniel Fernandes, 19 anos, é estudante de Jornalismo na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Nerd confesso, apaixonado por cultura, música e literatura, ele escreve em seu blog Caixa de Vinis mash-ups literários. Da sua janela de MSN, Daniel contou um pouco mais sobre o seu blog e o que o motivou a criá-lo.

Daniel e seu acervo literário: ele também é fã de Douglas Adams.

Daniel e seu acervo literário: ele também é fã de Douglas Adams.

Blog No Fim Do Universo: de onde veio a idéia para criar o Caixa de Vinis?

Daniel Fernandes: É engraçado. Eu estava fazendo um blog atrás do outro, mas nenhum parava. Aí você me deu uma dura e mandou eu deixar pelo menos um blog parado, existindo no meio da blogosfera. (risos)

(Pergunto porque Daniel riu, ele responde): É eu ri, mas não põe isso, é que é engraçada a história.

(E continua): Aí, eu pensei em um nome, em um layout. Inicialmente, seria meio que uma caixa de remédios, com o que seria, tipo assim, um bálsamo para os ouvidos, olhos, etc. Só que eu pensei que era meio pretensioso e que não estava bem na hora de ser pretensioso. Aí eu me lembrei que o Curtiss (Alexandre Curtiss, professor de várias disciplinas no curso de Comunicação Social da Ufes) tinha pedido um trabalho final de dez páginas e eu só tinha escrito quatro ou cinco. Então juntei dois trabalhos – um sobre Van Gogh e outro sobre a escola Bahaus. Ficou até decente e deu pra garantir uma nota boa. Foi na mesma época que eu criei o blog. Daí a idéia de misturar duas coisas. Se deu certo com o Curtiss, porque não ia dar certo fora de História da Arte? (Daniel diz que posso rir, eu rio e continuo a entrevista).

BNFDU: você já tinha visto algum mash-up literário antes?

Daniel: Assim, prontinho, não. Eu tinha, no máximo, descoberto que jornalismo e literatura, se não são a mesma coisa, são coisas muito próximas. Acho que o Plata Quemada, do Ricardo Piglia, é meio o que eu gosto – não dá pra saber até onde vão os fatos, até onde vai a ficção.

BNFDU: Entendi. Mas você considera o que você faz jornalismo literário? Ou apenas literatura disfarçada em resenha?

Daniel: Acho que agora, um pouco com mais coragem, dá pra sair do mash-up básico que estou fazendo para algo mais, mais, mais, mais desafiador, para ser brega. Eu acho que as duas primeiras fases do blog são bem jornalistas, bem factuais. Mas, agora, com os textos que ando pensando e escrevendo, a situação vai se inverter. Acho que o jornalista vai ser o leitor também. Porque vão surgir ficções no meio de fatos, fatos com fatos e ficções com ficções. Acho que já não cabe mais, pra mim, ser o mediador. Acho que me limita. Vou passar a desconfiança pros meus comentaristas. (Risos) Ver se eles descobrem ou não o que é real e o que é fake.

BNFDU: Espertinho. Me diga então, Daniel, você está apenas no 3º período de Jornalismo. Acha que essa sua experiência com mash-up literário pode influenciar na sua vida depois de formado?

Daniel: Sinceramente, essa eu não sei. Como anda o jornalismo brasileiro, talvez ajude se eu me der muito bem e for parar numa publicação mais avant-guard.

BNFDU: Mas é algo que você queira fazer profissionalmente?

Daniel: Eu acho que sim. É algo que eu quero fazer depois de formado, não só pelo prazer de escrever, de mexer com cultura, mas para colocar um pouco mais de sal em um jornalismo cultural que eu, hoje, como consumidor, me acho subestimado. Tem jornalista que acha que o leitor é um ignorante e não sabe completar as lacunas de suas reportagens. Eu não quero ser assim.

BNFDU: Então você considera o jornalismo cultural brasileiro fraco?

Daniel: Se não for fraco é, no mínimo, preguiçoso e covarde. Eu gosto muito de reportagens da Bravo! que, por exemplo, trazem a linguagem dos quadrinhos ou da própria literatura para dentro de si. Mas infelizmente, isso é algo que é culpa não só do jornalista, mas do leitor também. Esse semestre, escrevendo o No Entanto (Jornal Experimental do curso de Comunicação Social da Ufes), a minha coluna com a Flora (Viguini) e o Tiago (Moreno) (estudantes de Jornalismo da sala de Daniel) sofreu um pouco. Amigos de outros cursos preferiram a parte mais factual do que a parte que a gente brinca com o humor negro, com a ficção e com o sarcasmo. Eu acho que se o jornalista é preguiçoso ou ainda covarde, o leitor, muitas vezes, é acomodado. E essa acomodação é, na minha opinião, o cerne do problema.

BNFDU: Seria o caso então de considerar o jornalismo cultural da internet melhor do que o impresso?

Daniel: O jornalismo impresso quer ser o que foi há 200 anos. Tem posts no Twitter que são melhores que reportagens completas de grandes jornais por aí. A internet dá uma polifonia incrível. Eu vejo não só a opinião do jornalista, mas a de fãs nos comentários. Posso baixar (ainda – vamos esperar o AI-5 digital) o CD da banda num blog, ler a resenha no outro. E isso me sai muito mais acessível, barato e prazeroso que no impresso. Acho que a principal diferença que faz dos meios online mais “dignos” é o fim desse monopólio do discurso cultural.

Daniel Fernandes, além de tudo, também é fã da série de livros O Guia do Mochileiro das Galáxias, que inspirou esse blog.

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Casaco verde, velho e surrado.

Posted by Darshany L. em 22/05/2009

“Não dá mais pra você usar esse casaco”. Foi o que ouvi há três anos da minha mãe, eterna conhecedora do mundo. Claro que não dava, tudo que mãe diz é verdade (algumas vezes discordo), e também era muito óbvio, uma vez que se via o estado do tecido. Eu precisava deixar de lado, mas era tão difícil. “O meu casaquinho mãe…”, foi o que eu choramingava quando ela ameaçou doá-lo, no fim do ano de 2006.

Briguei tanto, que ele acabou por ficar. Dá sim um sentimento de culpa, sabendo que outra pessoa sem condição nenhuma poderia ter usado para se proteger do frio. O que é até bem hipócrita da minha parte e me faz sentir culpada por outra coisa: o fato de doarmos apenas coisas muito usadas para quem precisa, nunca doamos nada novinho e cheiroso, não é mesmo? Deixando as culpas perseguidoras de lado, o meu casaco ficou comigo para sempre. Mas tive que prometer que eu só ia usá-lo dentro de casa. Acho que minha mãe estava com vergonha e com medo de as pessoas acharem que ela não podia me dar um casaco novo. Bobeira.

Era início de abril, ano 2004, quase meu aniversário. E eu tinha, como presente, direito a comprar sei lá quantos reais em roupas, calçados, etc. O casaco, verde escuro e novíssimo, estava pendurado num cabide metálico, numa loja de departamento que não lembro o nome – provavelmente C&A. Ele estava só me esperando ali, pertinho da vitrine. Assim que eu entrei e o vi, quis comprá-lo. Primeiro, pelo prazer do consumo. E, depois, porque… bem, era mais pelo consumo mesmo. Eu fui achá-lo realmente bonito bem depois, quando cheguei em casa.

Além do verde muito bonito, o casaco tinha umas listras brancas no ombro e o número nove pintado no braço esquerdo. Era moleton mesmo, com capuz e zíper na frente. Para uma adolescente de quase 16 anos querendo imitar Avril Lavigne, ele era ideal. Eu estava doida para usá-lo, e não fazia frio nunca. Decidi usar mesmo assim, no calor. E foi exatamente dessa forma que o casaco começou a fazer parte dos melhores – e piores – momentos da minha vida.

Eu estudava no Cefetes (Centro Federal de Educação Tecnológica do Espírito Santo), colégio freqüentado por todos os tipos de pessoas. Eu me inseri nisso tranqüilamente, usando meu casaco verde diariamente no calor mesmo, sem me importar. Fazia ensino médio, estava indo pro segundo ano, as aulas começariam no fim de abril. E no meio desse tempo, eu comecei o relacionamento com meu primeiro namorado. E lembro até hoje, de quando estávamos sentadinhos no corredor da escola, antes de começar a namorar, e eu com meu casaco. Ele: “Esse é o casaco que você tanto falou que comprou né?”. Eu respondi, toda orgulhosa: “Sim!”. E talvez depois ele tenha me beijado.

Acho que esse foi o primeiro momento feliz que o casaco verde presenciou. Vieram muitos outros depois, alguns tristes. Acho que se ele pudesse falar, teria muitas histórias para contar. Segredos também. Coisas não publicáveis. Ele me acompanhou na maior parte do tempo, durante mais de dois anos. Talvez por isso tenha ficado velho e surrado tão rapidamente.

E é comigo que ele estava quando eu decidi de uma vez que ia fazer Comunicação. Esteve comigo nos dois anos de cursinho pré-vestibular que eu fiz, naquelas salas geladas de um colégio meio azul demais. Já era uma época na qual minha mãe insistia para eu usar um casaco mais novo, mas eu me recusava. Se não fosse o verdinho, não tinha graça. Ás vezes fazia tanto frio na sala, que ele não era suficiente. Mas eu não ligava. Não ligava que todas aquelas meninas na sala tivessem um casaco UOT ou Zoomp – o que não adiantava muito, pois usavam um short tão curto que não há casaco que segure o frio. Eu continuaria com meu casaco verde da C&A numa boa. No fim das contas, eu passei no vestibular e elas não.

No fim de 2006, tive que aposentá-lo. O casaco verde ficou muito tempo guardado na gaveta, dobradinho. Eu não tinha coragem de olhá-lo e não poder carregá-lo na minha mochila. Depois de um tempo, superei e comecei a usá-lo dentro de casa mesmo e para dormir.

Setembro de 2007, faculdade iniciada, alguns casacos novos. Mas o verdinho não estava esquecido. Resolvi criar um blog, e o primeiro nome que veio  à mente para colocar foi casaco verde. Lembrei que em tempos cefetianos, meu amigo Pedro Crivilin me chamava de garota do casaco verde, de tanto que eu o usava. Assim, por meio de um blog, meu casaco verde ficou eternizado.

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